quinta-feira, 20 de maio de 2010

VOLTAMOS



Olá. Depois de um ano, acesso, outra vez, esse ciberespaço. Agora percebo que havia criado em mim um vínculo emocional com esse lugar cultural. Isso me faz lembrar que (e é curioso) em alguns casos só percebemos que sentimos saudade quando revemos o objeto causador da saudade. Mas o que interessa é que estamos de volta. Eu e minha companhia de espetáculos. Fernão Gomes e seu teatrinho mambembe. Na medida do possível, vamos fazer a manutenção desse canteiro de obras. Por enquanto, deixo um pequeno sinal de afeto. Abraços.






INFÂNCIA
para Manuel Bandeira


O trem apitou outra vez
Como um aviso que percorre a madrugada
E, lentamente doppleriano, foi levando minha infância embora

FERNÃO GOMES







quarta-feira, 27 de maio de 2009

DEMÔNIOS

Olá. Aqui está outro texto de minha coletânea Construções Discursivas. Espero que provoque reflexões como os anteriores já postados. Abraços. FG


Depois de ouvir relatos sobre vampirismo e outras criaturas, o sujeito levantou-se, quase indignado, rindo ironicamente, e disse aos companheiros que ali estavam: “Como podem perder tempo com essas fantasias pueris? Deveriam ocupar suas vidas com algo concreto e verdadeiro como isto.” Exibiu, orgulhoso, um crucifixo, pendurado ao pescoço. “Ora, francamente.”
E saiu do recinto, fechando ruidosamente a porta atrás de si.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

VERROCCHIO



Olá! Esta é uma das obras mais amadas de Andrea del Verrocchio, artista renascentista italiano. Chama-se David e deve ser apreciada sempre. O Renascimento, como dizem os meus mestres, foi um dos períodos mais gloriosos de toda a História. E é, de fato, uma época absolutamente admirável. Apreciem, criaturas, apreciem. Abraços. FG

quinta-feira, 23 de abril de 2009

ARTE CONTEMPORÂNEA


Olá, pessoal. Um pouco de arte contemporânea brasileira pra todos. Trabalho da Pri Corbo. Abraços. FG

TECNOLOGIA INTERATIVA

Olá! Depois de muito tempo ausente e sem postagens, publico outra construção discursiva que segue as anteriores. Abraços a todos. Fernão Gomes

No terminal eletrônico, o usuário insere o cartão e observa a interface do monitor transformar-se: no centro da tela, projeta-se o logo do banco; nas extremidades, as operações disponíveis. Ele pressiona a tecla de saque, digita o valor e confirma a senha. Enquanto aguarda a operação concluir-se, ele sente a pressão do metal frio do revólver sobre a nuca e a respiração quente e alterada daquele que o constrange. O terminal libera o dinheiro no mesmo instante em que outro usuário abre a porta do banco. O assaltante se assusta e, por conta da excelente tecnologia da indústria de armas, que produz gatilhos tão sensíveis, acontece o disparo. O assaltante deixa a agência e desaparece na noite, sob o neon intermitente que se reflete na porta de vidro e na tela dos terminais. O primeiro usuário está caído, inerte entre notas e manchas de sangue.
O investigador solicita que o operador de vídeo volte o filme, uma vez mais. Ele assiste à seqüência e, a certa altura, no instante em que o segundo usuário entra na agência, o assaltante olha em direção à porta, permitindo identificar-se. Seguindo instruções do investigador, o operador de vídeo volta a cena, outra vez, até pausá-la no rosto do assaltante. Enquadram-no, imprimem cópias e saem a caçá-lo.
O rapaz pressiona a tecla do controle remoto e interrompe o filme. Levanta-se do sofá, desliga o som, vai à janela, debruça-se, apoiado nos cotovelos e, enquanto limpa os vãos da gengiva com a língua, eliminando as últimas partículas de pizza, contempla a noite sobre o grande centro. Permanece assim por uns minutos, sem pensar em nada, só olhando. Volta ao centro da sala, toma um gole de cerveja e acende um cigarro. Acomoda-se no sofá e continua assistindo ao filme que alugara no final da tarde.
Esse sujeito no apartamento da grande cidade; o investigador e seu assistente; o assaltante e o usuário na agência bancária, podem ser possibilidades, perspectivas que se articulam nos campos fronteiriços da mais complexa e contundente das tecnologias.

domingo, 8 de março de 2009

O VISITANTE II

Olá. Aqui está o segundo texto, que mantém a linha conceitual do anterior. Abraços. FG
Ele entra na sala, onde se dispõe apenas uma pequena mesa, ao centro. Na parede lateral, vê uma criatura engraçada que, em silêncio, o contempla. Ela é tão engraçada que ele começa a rir, incontrolavelmente. Ri tanto, tão hiperbólica e monstruosamente, tão além de suas forças, que sente esvaírem-se-lhe as energias vitais, em meio às lágrimas que escorrem e aos músculos do ventre que doem como se fossem explodir. Em seguida, ele bate a cabeça contra a parede, diversas vezes, e vai ao chão, sangrando e quase sem vida, enquanto a criatura engraçada o contempla, silenciosamente.

domingo, 1 de março de 2009

O VISITANTE

Olá. Gostaria de mostrar a vocês fragmentos da literatura que tenho escrito nos últimos tempos. Se der certo, um dia desses publicarei uma antologia. Boa leitura.



Súbito, a criatura atravessou o campo de visão, deslizando sem equilíbrio pelo mármore escorregadio. Foi quebrar-se nos canteiros uniformes que enfeitam a entrada do Banco Federal. Um funcionário da limpeza, que presenciara a cena, pensou: “Este mundo é uma tremenda instabilidade.” E continuou esfregando o mármore luzidio.