sábado, 13 de novembro de 2010

DÚVIDA

Ela subiu a escadaria e entrou na grande catedral. Sentiu-se aliviada ao transpor a passagem que a apartava do mundo dos homens, mas também surpreendeu-se constrangida diante da escala descomunal. Havia poucas pessoas pelos bancos, mas ela escolheu, criteriosamente, um lugar e acomodou-se. “Não vim agradecer, não vim em busca de bênção ou perdão: há muito meu repertório não é mais o mesmo. Vim ao encontro de um interlocutor, apresentar-me a mim mesma como um problema, porque a essa altura das coisas, somadas todas as representações, inclusive os espetáculos frustrados, não estou certa de que tenha restado muito das ilusões intelectuais, que parecem quedar-se, afinal, tartamudas e anafóricas. Tantos anos; títulos universitários; reconhecimento profissional; e tenho as mãos vazias. Depois de tudo, talvez pareça cinismo, senão hipocrisia, reduzir uma existência a um paradoxo poético. E é bem possível que não seja o único, porque também não sei o que dizer a respeito das religiões que deixaram em mim uma metafísica fraturada e uma explícita incompetência espiritual: não sei o que dizer de um deus ou de deuses, mas erigi altares que agora se desmoronam. Sobre bens materiais, obtive o bastante para o grande jogo das vaidades, mas como falar de posses, se me sinto escorrer como areia entre dedos? Como falar de posses, se o amor converteu-se numa construção irônica, num lugar cheio de cicatrizes? O que afinal restou de tudo?” Contemplou longamente os arcos ogivais da grande nave; sentiu-se sozinha como um pináculo. Levantou-se, retornou pelo mesmo corredor e, quando alcançou o portal, o limite entre os mundos, estremeceu: as pessoas, os edifícios, os veículos, as árvores – tudo havia desaparecido.

FERNÃO  GOMES

domingo, 7 de novembro de 2010

LUGAR COMUM

Na lan house as amigas estavam na mesma baia e partilhavam conteúdos. “É esse aqui”, disse uma delas, tocando levemente o monitor, que produziu ondulações, do centro para a circunferência. Entreolharam-se, incrédulas, olhos admirados. A garota tocou o monitor outras vezes e ali ficaram ambas, sob o encantamento das ondas, até perceberem que a tela era suscetível a ponto de penetrá-la. Uma delas forçou o dedo e, subitamente, quase toda a mão desapareceu dentro do monitor. “Fulana, que é isso?”, disse a amiga, enquanto a outra permanecia em silêncio, girando a mão submersa. Tentou puxá-la, mas a mão estava presa e, quanto mais força fazia, algo a sequestrava para dentro da tela. Respirou fundo e deu um impulso, mas, ao invés de sair, todo o seu braço entrou pelo monitor, que o absorveu até os ombros. Ela tentava voltar, apoiava-se com os pés no chão e na quina da mesa, enquanto com a outra mão segurava nas bordas escuras da tela. “Que é isso, Fulana? Para com essa brincadeira. Não tem graça nenhuma.” Mas a Fulana mal conseguia ouvir a amiga, lutava para não ser engolida, expressando nos olhos o mesmo horror da Medusa, de Caravaggio. “Por favor, alguém pode ajudar?”, pedia a amiga, enquanto tentava trazer a garota de volta, puxando-a pela cintura. Os usuários olhavam, mas voltavam aos monitores, em silêncio. Um deles levantou-se e tentou segurar a garota, mas não teve forças: ela foi puxada até a cintura e, num golpe fatal, todo o corpo desapareceu sob a tela do monitor. Houve um momento de silêncio interrompido apenas pela chegada do gerente: “Com licença. Não se preocupe. O que acabou de acontecer não é comum, mas é plausível.” O rapaz retornou à sua baia. A amiga sentou-se e permaneceu imóvel, quieta. Levou algum tempo para assimilar o fenômeno, mas depois desse intervalo disse: “Preciso ver meus emails.” O gerente respondeu: “Fique tranquila. Por conta desse incidente, a primeira hora será grátis, com direito a um refrigerante. Vou reiniciar o computador. Deseja mais alguma coisa?” “Não, obrigada.” Observou o computador abrir a área de trabalho e, ainda em silêncio, sentou-se com o refrigerante nas mãos e atualizou sua correspondência.



FERNÃO GOMES

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

EVENTO

Na noite fria de Londres, dois policiais acima do peso perseguem, ofegantes, um sujeito que se dissolve num corredor, sobe um lance da escada, atravessa a marquise e salta o muro entre os edifícios. Ele é um graffiti bomber e há pouco foi surpreendido em ação, mas fugiu às autoridades e aí o vemos, rosto escondido no capuz, mochila nas costas. Durante a fuga, passa por um estêncil de Banksy, vai em direção a um beco, salta outro muro e bate com os dois pés no chão, enquanto volta os olhos para as luzes estranhas que rasgam o céu da Inglaterra. Ele não sabe, mas a terra sob seus pés tremeu tão diferente que, no extremo oeste da Mongólia, um cazaque criador de camelos sentiu o tremor, no mesmo instante, onde no entanto já se vive outro tempo, é o dia seguinte, são seis horas da manhã. Ele está sentado, fumando e olhando a paisagem deserta, enquanto o vento frio sopra em seu rosto. Os animais estão inquietos, resmungaram a noite toda. Vai ao curral, renova os fardos de ração e, sentindo-se instável como os camelos em jejum, volta os olhos para o céu e vê as luzes de Londres cortando o céu da Mongólia. Seu grito prolongado assusta instantaneamente os trabalhadores do mercado municipal de São Paulo, mas lá ainda é o dia anterior, são nove horas da noite e eles se preparam para a grande feira do amanhecer, que talvez nunca aconteça. Inquietos como os camelos da Mongólia, abandonam no chão as caixas de legumes, giram os olhos para o céu e contemplam as luzes que riscam a noite de São Paulo, sentindo tremores assim como a terra tremera sob os pés do graffiti bomber londrino.



FERNÃO GOMES

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

ENCONTRO NA GARE

Os espaços da estação foram tomados por uma névoa repentina. Ninguém esperava aquilo, pelo menos não daquele modo tão súbito, tão silenciosamente invasor. Monitores e relógios desapareceram quase que por completo; deles restariam vagas luminescências perdidas ao longo da grande gare, convertida num estranho campo de esquecimento. O ar gelado penetrava os vazios entre as colunas de mármore descomunais. Naquele instante, naquele perfeito e simétrico instante, ela se encostou num canto de parede, contraindo os músculos das costas ao contato imediato da superfície fria. “É preciso estar atenta em meio ao nevoeiro.” Ela se assustou com a senhora encostada à parede, ao seu lado. Ficou olhando, sem reação, tremendo de frio. “Tome; use isto.” Pôs com delicadeza um casaco sobre seus ombros, sorriu sem mostrar os dentes e se afastou, desfazendo-se na névoa. “Não perca seu trem. A hora se aproxima.” Um súbito cheiro de fritura e café construiu imagens em sua mente e despertou o ideal de família há muito adormecido. Onde estarão? Quem eram eles? Instintivamente ela olhou para cima, a fim de identificar, no jogo de luzes e sombras, as gotas de chuva, que parecia ter recomeçado. Só então entendeu que estava chorando. Enxugou os olhos na manga do casaco, fez uma prece com quaisquer palavras, para encontrar nelas o fogo ao redor do qual encolheria seu ser, e desprendeu-se da parede, em direção à plataforma de embarque.    


FERNÃO  GOMES


quinta-feira, 30 de setembro de 2010

HERÓI

Eu queria cometer um crime e ser condenado por ele. Mas não apenas um crime sórdido, hediondo e sangrento, como costumam ser os crimes dos assassinos em série, dotados de mentes artisticamente complexas e corações indevassáveis, que engendram e executam nas trevas seus ódios ordinários e suas vinganças excepcionais. Não; esses crimes são desafortunadamente pontuais e convergentes. Eu queria um crime com outras proporções, um crime intenso o bastante para calcinar as inocências; contundente o bastante para devastar as ferocidades; um crime superlativamente extremo; um crime-espetáculo, representação, que expusesse a mais obscena e insuportável humanidade; um crime que trouxesse aos olhos aquilo de que mais as pessoas se escondem; que fosse cometido não às escondidas, mas à luz do dia, à luz mais ostensiva do dia, para que todos pudessem de algum modo protagonizá-lo comigo. Certamente, minha condenação seria assim: “O prestidigitador é culpado e será expulso da polis. Ele nos iludiu, ele mentiu para nós.” Em seguida, eu seria encerrado numa cela incrivelmente hermética, nas profundezas da terra, até o final dos tempos. Enquanto isso, os juízes voltariam a contemplar as oscilações das próprias sombras, vagamente projetadas na parede da caverna.



 
FERNÃO  GOMES

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

PARA SEMPRE

Eu estava de joelhos diante do grande altar, quando senti um tremor em meu coração. Cobri-me com o capuz e fiquei quieto, esperando por uma oscilação tênue no ar rarefeito. Súbito, aquele perfume ultra-azul, hipnótico como as flores de Havona, instalou-se nos vazios da catedral: “É estranho o sentimento de revolta que toma posse de meu coração, toda vez que nos encontramos.” Levantei-me e, ao contemplá-la de frente, confesso que fiz um esforço tremendo para não cair outra vez aos seus pés, seduzido por aquela imaterialidade elétrica que parecia esplender-se em todas as direções, mas inexplicavelmente contida por uma transmecânica que tornava possível envolvê-la em meus braços, durante séculos. “São defesas forjadas por mim mesma, eu sei. Eu te amo. Mas não posso; simplesmente não posso.” Era um fim de tarde e eu fiquei parado, sozinho entre as capelas radiantes, transido na fronteira dos vazios extensos que se abriam monstruosos diante de mim. Ela desapareceu, dissolvendo-se entre os arcos ogivais da grande nave, não sei como fez aquilo. Mas deixou em meus lábios um chamado, um sinal inscrito em mim mesmo, uma distinção que há muito ela também leva consigo.   


FERNÃO GOMES

sábado, 4 de setembro de 2010

AGNÈS SOREL

Ela entra no quarto para despir-se, mas sua nudez não se revelará assim, de um instante a outro, como parco objeto que se abre repentinamente sem as essenciais oscilações da expectativa ou como gesto vazio de quem já se esqueceu do esplendor do rito. Não; absolutamente não. Ela descobre o seio com o rigor calculado de quem transita em zonas fronteiriças – nem a transcendência da mãe, nem a obscenidade da amante. Ao livrar-se do vestido e abandoná-lo no chão, deixa transparecer, para si mesma, um vago vestígio de pudor, mas é possível que pudor, neste caso, seja apenas um artifício. A verdade é que a essa altura a máxima distância que nos separa de suas entranhas é a última peça. Vamos então tirá-la, mas não faremos isso pelo texto, não seria amigo suprimir a possibilidade de o leitor elaborar ele próprio esse deleite. Deixamos aqui uma lacuna, um interstício, e muitos mistérios. Ela agora está deitada de bruços, completamente nua, balançando as pernas entreabertas, vagamente entretida com anotações de um diário – eu te odeio, eu te amo; eu te odeio, eu te amo; eu te odeio, eu te amo. Logo, o rei entrará por aquela porta.

FERNÃO  GOMES