domingo, 12 de dezembro de 2010

PÉROLA

Tantas vezes meus olhos percorreram suas formas sem que eu tivesse o menor vislumbre do que agora vejo, sem que eu sequer compreendesse o assombro que desde o primeiro instante fizera de mim um espectro entre tantos que contemplam sua imagem. No entanto, na pungente tarefa da contemplação, sinto-me eu mesmo trespassado pelo poder inominável de seu olhar, feito um narciso sem defesas, devassado diante da língua intraduzível que desliza em seus lábios entreabertos, pelos quais se insinuam promessas e precipícios. E dos desvios inexplicáveis da beleza, que simula ilusões tanto quanto se enreda com ironias, surge, no campo nebuloso de sua imagem, o singular pingente, fonte de inquietudes e abismo em cujas profundezas todo olhar se consome e toda luz se extingue.

para J. Vermeer

FERNÃO GOMES

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

VISÃO


Um vulto atravessou o cruzamento de corredores e, antes que desaparecesse atrás da grande gôndola de livros, pareceu olhar em minha direção. Era uma biblioteca de vastidões, corredores e perspectivas invencíveis, andares hipnóticos que se arrojavam às nuvens, trespassados por escadas saídas das visões de Escher. Em meio ao silêncio das estranhas criaturas que se moviam por aquelas amplidões geladas, saí em busca do vulto e deparei-me com uma porta entreaberta. Empurrei-a com os pés, levemente, e entrei. “Fernão Gomes: por que está me seguindo?” Ela estava bem acomodada numa poltrona, vestido longo, pernas cruzadas. A fumaça do cigarro ondulava, finíssima, à luz da luminária disposta no criado-mudo. “Se você me deseja, devo dizer, sem cerimônias, que estou somente amando a barata. E é um amor infernal.” “Mas você não é quem antes me pareceu ser”, respondi. “Nem se parece com ela.” “Nada em mim era como aquilo que você conheceu. Eu me pareço com as coisas que invento, com as coisas que ninguém vê. Você sabe realmente para o que está olhando?” De repente, dezenas de Clarices de idades diferentes estavam em pé, dispostas ao redor, olhando em minha direção. Contemplei-as por um instante, mas fui interrompido pela pós-imagem dela: “Você também morde a própria cauda. Terá o seu esplendor.” Súbito, tudo ao meu redor converteu-se em trevas e eu senti na ponta dos dedos a lombada do livro que segurava, quando seu vulto primeiro atravessou o corredor. Eu voltara ao mesmo lugar ou então nunca dali saíra. Deixei o livro e, sentindo frio, afastei-me pelo corredor e fui me dissolvendo na perspectiva, como um holograma no fim de tarde.


FERNÃO GOMES

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

HOTEL NACIONAL

“Sua presença é uma onda, uma perturbação para os meus sentidos. Sua presença é tão simples e inexplicável como uma mulher dentro de um homem. Mas sua presença não é uma inovação em mim: ela me dá mais de tudo quanto já tenho e sinto, ela me dá mais do mesmo. Sua presença é repetição; seu olhar percorrendo meu corpo é repetição; sua ingenuidade simulada é repetição; seu sentimento amoroso, constrangedor e excessivamente teatralizado, é repetição; o sexo entre nós é repetição. Mesmo assim eu desejo todas essas repetições, bem como os intervalos sugeridos entre elas, porque neles posso descobrir esconderijos, porque neles posso ser outra, posso ser outras. Sua presença em minha vida é um fantasma percorrendo corredores sombrios. Eu desisti da ilusão de ser feliz; não tenho mais esse tipo de frivolidade. O próprio amor tornou-se um horror social: nós fizemos dele um monstro. Nunca mais se aproxime de mim, até a semana que vem.” Ela se levantou da poltrona e deixou o quarto. Enquanto isso, ele ficou sentado na beira da cama, olhando quieto a lâmina de luz que penetrava o ambiente pela fissura da porta que ela não fechara completamente.


FERNÃO  GOMES


sábado, 13 de novembro de 2010

DÚVIDA

Ela subiu a escadaria e entrou na grande catedral. Sentiu-se aliviada ao transpor a passagem que a apartava do mundo dos homens, mas também surpreendeu-se constrangida diante da escala descomunal. Havia poucas pessoas pelos bancos, mas ela escolheu, criteriosamente, um lugar e acomodou-se. “Não vim agradecer, não vim em busca de bênção ou perdão: há muito meu repertório não é mais o mesmo. Vim ao encontro de um interlocutor, apresentar-me a mim mesma como um problema, porque a essa altura das coisas, somadas todas as representações, inclusive os espetáculos frustrados, não estou certa de que tenha restado muito das ilusões intelectuais, que parecem quedar-se, afinal, tartamudas e anafóricas. Tantos anos; títulos universitários; reconhecimento profissional; e tenho as mãos vazias. Depois de tudo, talvez pareça cinismo, senão hipocrisia, reduzir uma existência a um paradoxo poético. E é bem possível que não seja o único, porque também não sei o que dizer a respeito das religiões que deixaram em mim uma metafísica fraturada e uma explícita incompetência espiritual: não sei o que dizer de um deus ou de deuses, mas erigi altares que agora se desmoronam. Sobre bens materiais, obtive o bastante para o grande jogo das vaidades, mas como falar de posses, se me sinto escorrer como areia entre dedos? Como falar de posses, se o amor converteu-se numa construção irônica, num lugar cheio de cicatrizes? O que afinal restou de tudo?” Contemplou longamente os arcos ogivais da grande nave; sentiu-se sozinha como um pináculo. Levantou-se, retornou pelo mesmo corredor e, quando alcançou o portal, o limite entre os mundos, estremeceu: as pessoas, os edifícios, os veículos, as árvores – tudo havia desaparecido.

FERNÃO  GOMES

domingo, 7 de novembro de 2010

LUGAR COMUM

Na lan house as amigas estavam na mesma baia e partilhavam conteúdos. “É esse aqui”, disse uma delas, tocando levemente o monitor, que produziu ondulações, do centro para a circunferência. Entreolharam-se, incrédulas, olhos admirados. A garota tocou o monitor outras vezes e ali ficaram ambas, sob o encantamento das ondas, até perceberem que a tela era suscetível a ponto de penetrá-la. Uma delas forçou o dedo e, subitamente, quase toda a mão desapareceu dentro do monitor. “Fulana, que é isso?”, disse a amiga, enquanto a outra permanecia em silêncio, girando a mão submersa. Tentou puxá-la, mas a mão estava presa e, quanto mais força fazia, algo a sequestrava para dentro da tela. Respirou fundo e deu um impulso, mas, ao invés de sair, todo o seu braço entrou pelo monitor, que o absorveu até os ombros. Ela tentava voltar, apoiava-se com os pés no chão e na quina da mesa, enquanto com a outra mão segurava nas bordas escuras da tela. “Que é isso, Fulana? Para com essa brincadeira. Não tem graça nenhuma.” Mas a Fulana mal conseguia ouvir a amiga, lutava para não ser engolida, expressando nos olhos o mesmo horror da Medusa, de Caravaggio. “Por favor, alguém pode ajudar?”, pedia a amiga, enquanto tentava trazer a garota de volta, puxando-a pela cintura. Os usuários olhavam, mas voltavam aos monitores, em silêncio. Um deles levantou-se e tentou segurar a garota, mas não teve forças: ela foi puxada até a cintura e, num golpe fatal, todo o corpo desapareceu sob a tela do monitor. Houve um momento de silêncio interrompido apenas pela chegada do gerente: “Com licença. Não se preocupe. O que acabou de acontecer não é comum, mas é plausível.” O rapaz retornou à sua baia. A amiga sentou-se e permaneceu imóvel, quieta. Levou algum tempo para assimilar o fenômeno, mas depois desse intervalo disse: “Preciso ver meus emails.” O gerente respondeu: “Fique tranquila. Por conta desse incidente, a primeira hora será grátis, com direito a um refrigerante. Vou reiniciar o computador. Deseja mais alguma coisa?” “Não, obrigada.” Observou o computador abrir a área de trabalho e, ainda em silêncio, sentou-se com o refrigerante nas mãos e atualizou sua correspondência.



FERNÃO GOMES

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

EVENTO

Na noite fria de Londres, dois policiais acima do peso perseguem, ofegantes, um sujeito que se dissolve num corredor, sobe um lance da escada, atravessa a marquise e salta o muro entre os edifícios. Ele é um graffiti bomber e há pouco foi surpreendido em ação, mas fugiu às autoridades e aí o vemos, rosto escondido no capuz, mochila nas costas. Durante a fuga, passa por um estêncil de Banksy, vai em direção a um beco, salta outro muro e bate com os dois pés no chão, enquanto volta os olhos para as luzes estranhas que rasgam o céu da Inglaterra. Ele não sabe, mas a terra sob seus pés tremeu tão diferente que, no extremo oeste da Mongólia, um cazaque criador de camelos sentiu o tremor, no mesmo instante, onde no entanto já se vive outro tempo, é o dia seguinte, são seis horas da manhã. Ele está sentado, fumando e olhando a paisagem deserta, enquanto o vento frio sopra em seu rosto. Os animais estão inquietos, resmungaram a noite toda. Vai ao curral, renova os fardos de ração e, sentindo-se instável como os camelos em jejum, volta os olhos para o céu e vê as luzes de Londres cortando o céu da Mongólia. Seu grito prolongado assusta instantaneamente os trabalhadores do mercado municipal de São Paulo, mas lá ainda é o dia anterior, são nove horas da noite e eles se preparam para a grande feira do amanhecer, que talvez nunca aconteça. Inquietos como os camelos da Mongólia, abandonam no chão as caixas de legumes, giram os olhos para o céu e contemplam as luzes que riscam a noite de São Paulo, sentindo tremores assim como a terra tremera sob os pés do graffiti bomber londrino.



FERNÃO GOMES

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

ENCONTRO NA GARE

Os espaços da estação foram tomados por uma névoa repentina. Ninguém esperava aquilo, pelo menos não daquele modo tão súbito, tão silenciosamente invasor. Monitores e relógios desapareceram quase que por completo; deles restariam vagas luminescências perdidas ao longo da grande gare, convertida num estranho campo de esquecimento. O ar gelado penetrava os vazios entre as colunas de mármore descomunais. Naquele instante, naquele perfeito e simétrico instante, ela se encostou num canto de parede, contraindo os músculos das costas ao contato imediato da superfície fria. “É preciso estar atenta em meio ao nevoeiro.” Ela se assustou com a senhora encostada à parede, ao seu lado. Ficou olhando, sem reação, tremendo de frio. “Tome; use isto.” Pôs com delicadeza um casaco sobre seus ombros, sorriu sem mostrar os dentes e se afastou, desfazendo-se na névoa. “Não perca seu trem. A hora se aproxima.” Um súbito cheiro de fritura e café construiu imagens em sua mente e despertou o ideal de família há muito adormecido. Onde estarão? Quem eram eles? Instintivamente ela olhou para cima, a fim de identificar, no jogo de luzes e sombras, as gotas de chuva, que parecia ter recomeçado. Só então entendeu que estava chorando. Enxugou os olhos na manga do casaco, fez uma prece com quaisquer palavras, para encontrar nelas o fogo ao redor do qual encolheria seu ser, e desprendeu-se da parede, em direção à plataforma de embarque.    


FERNÃO  GOMES