sábado, 20 de agosto de 2011

CHIAROSCURO

Os espaços da estação foram tomados por uma névoa repentina. Ninguém esperava aquilo, pelo menos não daquele modo tão súbito, tão silenciosamente invasor. Monitores e relógios desapareceram quase que por completo; deles restariam vagas luminescências perdidas ao longo da grande gare, convertida num estranho campo de esquecimento. O ar gelado penetrava os vazios entre as colunas de mármore descomunais. Naquele instante, naquele perfeito e simétrico instante, ela se encostou num canto de parede, contraindo os músculos das costas ao contato imediato da superfície fria. “É preciso estar atenta em meio ao nevoeiro.” Ela se assustou com a senhora encostada à parede, ao seu lado. Ficou olhando, sem reação, tremendo de frio. “Tome; use isto.” Pôs com delicadeza um casaco sobre seus ombros, sorriu sem mostrar os dentes e se afastou, desfazendo-se na névoa. “Não perca seu trem. A hora se aproxima.” Um súbito cheiro de fritura e café construiu imagens em sua mente e despertou o ideal de família há muito adormecido. Onde estarão? Quem eram eles? Instintivamente ela olhou para cima, a fim de identificar, no jogo de luzes e sombras, as gotas de chuva, que parecia ter recomeçado. Só então entendeu que estava chorando. Enxugou os olhos na manga do casaco, fez uma prece com quaisquer palavras, para encontrar nelas o fogo ao redor do qual encolheria seu ser e desprendeu-se da parede, em direção à plataforma de embarque.   

FERNÃO GOMES

domingo, 14 de agosto de 2011

AUTOFICÇÃO

É um mundo inóspito; intenso; vigoroso. Durante todos esses anos, tenho me sentido cercado, encarcerado em mim mesmo, sozinho como um objeto esquecido no fundo de uma gaveta. Todos foram embora; não há mais ninguém por esses corredores extensos; apenas a vertigem de sua perspectiva interminável. Estou sozinho nesse pátio à meia-luz. Desculpem minha sinceridade e o tom confessional de minhas palavras, mas sinto-me melhor do que quando estava cercado por eles. Sou escritor e professor e, às vezes, me surpreendo buscando uma razão, um nexo que explique todas essas monstruosidades. Eles falavam, aflitivamente, todos ao mesmo tempo, e em voz alta, vociferavam em busca de coisas, em busca de ilusões, em busca de nada. São fantasmas perseguindo fantasmas; sombras em busca de sombras. Naturalmente, eu não tinha respostas para as perguntas que faziam. Quem as tem? Eles não sabiam que eu tinha as mãos vazias. Creio que todos os homens têm as mãos vazias. Encolho-me, por um instante, diante da onda de ar frio que avança por esses corredores, enregelando minha pele. Nesse momento, restam os últimos funcionários, apagando as luzes das últimas salas. Antes de eu me levantar desse banco, antecipo em mim mesmo o ruído dos meus passos pelo corredor e o fragor da porta se fechando. Não sei em que mundo entrarei, quando puser os pés na noite que entra.

FERNÃO GOMES

sábado, 6 de agosto de 2011

A HORA FRIA

Escolhi esconder, mas tudo em mim são os seus dez bilhões de olhos; tudo em mim são distâncias inconcebíveis – berçários de estrelas; regimes que silenciam oposições; seu implacável furor. Escolhi esconder, mas como assimilar esse jogo, se [agora sei] sou eu que me persigo, e o aparente ludismo pode se converter repentinamente em horror difuso e fronteiriço? Sinto cansaço de tudo, mas porque sou cambiante digo “sim” a todas as coisas, digo “não” ao não: necessito de tudo que é perfeitamente humano, de tudo que em mim são distâncias incomensuráveis, mas absolutamente transponíveis – misteriosas planícies siderais; constrangimentos entre cristãos e muçulmanos; o cheiro ácido e atraente do seu sexo; o frio penetrante da última hora antes do amanhecer. Também escolhi abandonar os caminhos que me conduziam à sua presença, mas a cada passo em direção à circunferência recolho despojos de sua acidez, do desenho tortuoso e úmido de suas pegadas, mas mesmo assim prossigo como quem caminha pelo cais do porto, num dia chuvoso, perseguindo os vagos sinais de uma presença espectral, uma presença que me impele continuamente para dentro de mim mesmo. Por enquanto, não espero nada, porque tenho o código de uma nova mídia. Ele está inscrito em minha alma - é a razão de  todas as minhas inquietudes e de suas futuras mensagens de texto.

FERNÃO GOMES

domingo, 31 de julho de 2011

X-FILES

Ele pôs o fone de ouvido, mas não conseguiu ouvir New York, New York. Talvez o aparelho estivesse com defeito. Chamou o operador de áudio e, num inglês sofrível, explicou o problema. O rapaz fez ajustes em alguns botões e o devolveu em perfeito estado de funcionamento. Enquanto ouvia a canção, cobriu a cabeça com o capuz, como tinham feito os demais monges que ali aguardavam o momento da gravação do comercial. Estavam sentados na posição de lótus, ouvindo nos fones a voz de Frank Sinatra. Percorreu com o olhar as câmeras e os holofotes dispostos em todos os cantos do grande terraço, de onde era possível contemplar a Ilha de Manhattan, naquele fim de tarde frio e sem nuvens. A numerosa equipe da emissora movimentava-se, de um lado a outro, dispondo os últimos microfones, realizando testes. Logo, o diretor fez um sinal, interromperam a música, ficaram todos em silêncio. Depois da contagem regressiva, entraram ao vivo na programação da emissora. Ao sinal do assistente, os monges iniciaram a vocalização do OM, em tom grave e vigoroso. Aos poucos, sua vibração começou a estremecer as instalações de transmissão, explodiram alguns holofotes, romperam-se fios elétricos e, um a um, os monges elevaram-se no ar e, diante dos olhos de milhares de pessoas, desapareceram na última luz do dia.

FERNÃO GOMES

terça-feira, 26 de julho de 2011

UMA NOVA NOVA TEORIA DO ROMANCE

Eles caminhavam em círculo, percorrendo aqueles vastos campos inóspitos, forjando na terra um caminho. A cada volta deparavam-se com as marcas que tinham deixado, admirando o lavor dos próprios pés. Eles caminhavam em círculo, percorrendo aqueles vastos campos inóspitos, forjando na terra um caminho. A cada volta deparavam-se com as marcas que tinham deixado, admirando o lavor dos próprios pés.  Eles caminhavam em círculo, percorrendo aqueles vastos campos inóspitos, forjando na terra um caminho. A cada volta deparavam-se com as marcas que tinham deixado, admirando o lavor dos próprios pés.  Eles caminhavam em círculo, percorrendo aqueles vastos campos inóspitos, forjando na terra um caminho. A cada volta deparavam-se com as marcas que tinham deixado, admirando o lavor dos próprios pés.

FERNÃO GOMES

domingo, 17 de julho de 2011

DOPPELGÄNGER

Tem os meus olhos - e um olhar de amplidões que eu jamais supusera. Vi-o uma única vez, quando saía de um zoológico, num fim de tarde frio, que deixara em meu ser impressões de irrealidade, especialmente depois que passei pela jaula da fênix e do basilisco. Havia poucas criaturas transitando pelas alamedas álgidas, quando ouvi aquela composição de violinos emergindo das trevas, em todo o seu esplendor, para fundir-se com um coro de barítonos sombrios que eu sentia incorporarem-se à paisagem desolada do pôr-do-sol, como um réquiem. Ele ficou parado, olhando fixamente, as mãos apoiadas no vidro de uma janela invisível, desejando algo íntimo e indevassável que eu carregava comigo, minha própria alma. Foi uma experiência tenebrosa: esqueci-me dos animais que acabara de rever e fugi, constrangido por uma estranha vibração que trespassava todo o meu corpo. E agora posso vê-lo, outra vez, olhando fixamente através da mesma janela. Não posso abri-la, deixarei tudo trancafiado! Ele é um eu esquecido, uma sombra ancestral, a não-linearidade em minha palavra. 

FERNÃO GOMES 

sexta-feira, 8 de julho de 2011

TAXI BOY

“Haverá um tempo para todas as coisas? Você acredita nisso? Que haverá um tempo em cujas entranhas repousa, silenciosa, a compreensão de todas as coisas? Ainda que houvesse, quantas delas, essenciais para uma vida, são assimiladas tarde demais, tão tarde que chega a ser um ultraje, tão tarde que nenhuma lágrima explica.” Levantou-se, passeou nu pelo quarto, completou o cálice, acendeu um cigarro. “Sua ingenuidade me dá calafrios, porque não é dissimulada; é expressão espontânea de preconceito mais do que seria artifício do orgulho. E isso é tudo o que você tem: o seu preconceito, razão da percepção tardia das coisas, como já disse. Enxugue suas lágrimas, elas são inúteis e não explicam nada. Quantas níobes há em você? Que desperdício! Vista-se e saia. Jamais diga ao seu namorado o que não aconteceu entre nós. Ele nunca entenderá.” Virou o último gole de vinho e ficou quieto, fumando, esperando que ela se recompusesse. “Eu poderia amar você uma vida inteira.” Ela saiu chorando, enquanto ele voltou para a cama. Ao passar pelo espelho, sua imagem não se refletiu na lâmina.

FERNÃO GOMES