sexta-feira, 13 de setembro de 2013

QUANDO A NOITE CAI (velha canção contemporânea)

Quando a noite cai, uns após outros, vão os prosadores, em silêncio, à beira do abismo. E ali, transidos, lançam olhares ao grande vazio. Quando a noite cai, uns após outros, vão os prosadores, em silêncio, à beira do abismo. E ali, tolhidos, fixam olhares nas pedras do fundo do abismo. Ó Deus, eu vejo quão profundo é o vazio, eu vejo quão tolos somos nós, o abismo está em nós. Quando a noite cai, nas últimas luzes do dia, os prosadores descem, seguindo as trilhas, à beira do abismo. E ali, perdidos, contemplam o fundo do abismo.  Ó Deus, eu vejo quão profundo é o vazio, eu vejo quão tolos somos nós, o abismo está em nós. Ó Deus, por que também vou para a beira do abismo? Quão profundo é o abismo; o abismo somos nós.

a. o.

FERNÃO GOMES

sábado, 20 de julho de 2013

A SOMA DOS DIAS


Lembro-me vagamente de palavras lançadas ao vento frio, naqueles corredores extensos. Eu não podia ver o fim daquelas paredes altíssimas, tão longínquas e escuras, tão indevassáveis nas alturas e nas sombras de uma ilusão em forma de perspectiva. Ela dizia, sorrindo: “Venha passear comigo pelos campos sulfurosos da Terra.” Eu me esforçava para alcançá-la, impunha-me forças descomunais, ação aflitiva de músculos espartanos, mas ela se dissolvia e escapava por entre os meus dedos, como um vapor fugidio, como uma paixão que se desfaz ao menor movimento. 

FERNÃO GOMES

quarta-feira, 10 de julho de 2013

PROVENÇAL


Senhora, foi preciso que eu sangrasse vagarosamente, feito um arcanjo quântico, em busca de crepúsculos escarlates; foi preciso que eu atravessasse os lagos de sangue e sentisse o fel em meus dentes, como quem digere o metal amargo e translúcido; foi preciso que eu ficasse apenas com a memória do vento frio, além da álgida e pungente sensação de ter nada em minhas mãos; foi preciso que seu falso punhal me trespassasse para que eu compreendesse que seus esconderijos são invenções de temor e vazio. Suas máscaras são ilusões que se corrompem tenuemente como os delicados círios, diante do fogo implacável. Eu sou esse fogo, a chama diante da qual tudo se revela. Suas criações, tênue Senhora, serão nada mais que vultos desaparecendo, tristemente, como hologramas efêmeros, nas avenidas assombrosas de um solitário disco rígido.

FERNÃO GOMES

segunda-feira, 1 de julho de 2013

FRAGMENTO


Eu tentei, mas não foi possível conter a lágrima. Agora compreendo que nela está inscrita a mesma palavra que produz a ilusão da chuva gelada e das estrelas que explodem bem longe daqui. Escolham suas espadas. A minha estava encravada na pedra.

FERNÃO GOMES

quarta-feira, 1 de maio de 2013

DÓNDE ESTÁS MI AMOR?



Não vou seguir suas pegadas feito animal obcecado por sangue e carne: sou mais que morcego e lobo, mais que as ficções com as quais você sonha todas as noites.

FERNÃO  GOMES

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

NO INTERIOR DO CUBO BRANCO



Tinha, de fato, uma grossa camada de poeira sobre os móveis dispostos no grande salão. O que restava dos lençóis e de sua pressuposta alvura cheirava a mofo transmorfo. Eram formas ainda trancafiadas no esplendor de um passado, de um tempo que se consumira nos miasmas da vogue. De repente, dezenas de autômatos se materializaram, impuseram-se na paisagem desolada, meio ameaçadores, tinha entre eles uma névoa quase espessa. Um então tomou forma e veio em minha direção - cabelos brancos longamente espetados, óculos de sol, mãos acomodadas nos bolsos de um casaco escuro. “Entendeu como o todo se move, além de apenas admirá-lo?” – perguntou. “Por que estamos entre esses híbridos ameaçadores?” – perguntei. “Ora, isso é uma artimanha da sua própria ficção.” Aproximou-se e, após um breve silêncio, disse, sorrindo: “A semidemência da repetição e a exaustão do automatismo não são retrocesso, são mais do mesmo, são atributos desse mundo. Venha, vamos percorrer os caminhos da luz, sem luz; e os caminhos do amor, sem amor.” Pouco depois, deixamos para sempre o grande salão entregue a si mesmo.

FERNÃO  GOMES