domingo, 31 de março de 2013
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
NO INTERIOR DO CUBO BRANCO
Tinha,
de fato, uma grossa camada de poeira sobre os móveis dispostos no grande salão.
O que restava dos lençóis e de sua pressuposta alvura cheirava a mofo
transmorfo. Eram formas ainda trancafiadas no esplendor de um passado, de um
tempo que se consumira nos miasmas da vogue.
De repente, dezenas de autômatos se materializaram, impuseram-se na paisagem
desolada, meio ameaçadores, tinha entre eles uma névoa quase espessa. Um então tomou
forma e veio em minha direção - cabelos brancos longamente espetados, óculos de
sol, mãos acomodadas nos bolsos de um casaco escuro. “Entendeu como o todo se
move, além de apenas admirá-lo?” – perguntou. “Por que estamos entre esses
híbridos ameaçadores?” – perguntei. “Ora, isso é uma artimanha da sua própria ficção.”
Aproximou-se e, após um breve silêncio, disse, sorrindo: “A semidemência da
repetição e a exaustão do automatismo não são retrocesso, são mais do mesmo,
são atributos desse mundo. Venha, vamos percorrer os caminhos da luz, sem luz;
e os caminhos do amor, sem amor.” Pouco depois, deixamos para sempre o grande
salão entregue a si mesmo.
FERNÃO GOMES
domingo, 6 de janeiro de 2013
O SOPRO DO DRAGÃO
Ela
fixou o olhar nas nuvens escuras que se movimentavam na linha extrema; sentiu
cheiro de chuva, um vento frio começava a soprar em seu rosto. Suspirou,
resignada, mas esse suspiro não passava de uma calculada encenação para si
mesma, um mero sinal estético revelador de que suas tarefas estavam concluídas
e que as horas se consumiam, como tudo se consome. Olhou ao redor e contemplou
a paisagem árida, o mesmo deserto sonoro, cindido por uma incompreensão de
monitores translúcidos, flutuando acima de sua cabeça, impassíveis, quase
inexpugnáveis. Sentiu-se premida; não sabia quanto tempo restava; e uma súbita angústia
de estar sozinha fê-la mover-se, como quem desperta repentinamente de um sonho.
Agachou-se, desenhou símbolos lemurianos no chão arenoso, com o primeiro
graveto que encontrou, e deixou o lugar, sem olhar para trás. Quando se
transformara em apenas um ponto negro no horizonte, os riscos que desenhara no
chão começaram a abrir-se em grandes fendas, movendo ruidosamente a terra e os
céus. Durante centenas de anos, ninguém mais poria os pés naquele solo inculto
e belo.
FERNÃO GOMES
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
O CAMINHO DE VOLTA
Ela
alcançou o terraço, ofegante, o corpo encharcado pela chuva fina. Tirou os
sapatos, que laceravam os pés, enquanto puxava o vestido longo, tentando
livrá-lo inutilmente da água que escorria pelo chão. “Está procurando por
isso?” A Senhora, sentada numa cadeira sob um baldaquino, exibia entre os dedos
o brinco que ela recém-perdera. “Aproxime-se.” Sorridente, ofereceu-lhe num
gesto a cadeira ao lado. Sentada confortavelmente e fumando por uma piteira,
ela disse: “Quantas indagações há em seu olhar. Quisera pudesse responder a
todas elas.” “E não pode?”, perguntou a Moça. “Algumas, talvez, a começar pela
minha identidade. Sou apenas uma voz, uma imagem de tudo quanto seu sistema de
crença é capaz de assimilar, sem fraturas emocionais, naturalmente.” Deu uma
nova baforada, com certo artificialismo cinematográfico, e estendeu o brinco.
“Vamos, pegue-o de volta. Não desejo outra marca de ausência além daquelas com
as quais você fez inscrições em sua alma.” Lágrimas desprenderam-se dos olhos
da Moça e se desfizeram no rosto ainda molhado. “Não estamos aqui para tratar das
questões previsíveis desse mundo: constrangimentos biológicos sazonais,
submissão histórica diante do patético discurso masculino. Essas ocorrências não
passam de encenações ordinárias.” Outra baforada e disse: “Seu mundo de sonhos
é um lugar solitário.” A Moça continuava chorando, em silêncio. “O que se
perdeu é mais do que apenas um brinco. Mas lembre-se, querida, lembre-se
daqueles campos vazios.” Uma súbita revoada de corvos cruzou o céu noturno,
quase resvalando os cabelos encharcados da Moça, que repentinamente percebeu-se
sozinha, sentada na mesma cadeira, exposta à chuva que se tornara intensa.
Deixou o terraço como um pequeno barco que se desprende do cais e vagarosamente
desaparece nas águas silenciosas.
m.
q.
FERNÃO GOMES
sábado, 24 de novembro de 2012
CINEMA
Ela
surge no campo de flores, banhada pelo sol da manhã. Os cabelos dourados,
caídos aos ombros, exibem ondulações de luz, enquanto o vestido azul e leve
contorna seu corpo, entre os lilases do campo de alfazemas. O coração está
acelerado, seus olhos se movimentam à procura de alguém. No outro extremo do
campo, ele surge, resplandecente à luz do mesmo sol. Sai em direção a ela,
correndo entre as flores, ao mesmo tempo em que ela sai em sua direção, de
braços abertos. Encontram-se num abraço perfeito, girando e rindo de extrema
alegria. Ao concluírem a cena, duas assessoras da equipe de produção foram
levadas às pressas ao hospital, em meio às lagrimas e à beira de um colapso
nervoso.
FERNÃO GOMES
terça-feira, 9 de outubro de 2012
QUADRILHA
O sanfoneiro impusera o ritmo nos pés
dos festeiros: o chamado da sanfona não se engana; o chamado da sanfona é o
chamado da sanfona, já dizia o sanfoneiro. Mas vão entrando os casais, entre
aplausos e sorrisos: rendas e vestidos estremecem; chapéus de palha flutuam entre
bandeiras volpianas; há rumores no terreiro. Cavalheiros e damas se
cumprimentam, lá e cá, enquanto esse menino, na barraca dos suspiros, observa o
movimento, leva um cravo na lapela. Sozinho, ele se apressa e fica em pé na
cadeira esquecida de um festeiro, contemplando os casais que se empolgam no
momento do passeio. Eles percorrem a extensão do terreiro, exibindo suas pintas,
seus bigodes pressupostos. Quando os noivos passam pelo menino, os olhares se
encontram: naquele mundo, ela se casa com outro, e tem neste o coração enlaçado
por quem está na ponta dos pés, olhando em silêncio os pares que atravessam o
túnel e seus sobressaltos. Na toada da sanfona e nas veredas da roça, a noiva
deixa acenos, deixa indícios de seus olhos - o menino sente o suspiro derreter
no corpo úmido da língua. No caracol, entre padrinhos, convidados, figurantes, ela
gira, rodopia e se sente entontecer: é um vislumbre dos enganos, das quimeras da
fortuna. A grande roda se desfaz, cavalheiros e damas se despedem, lá e cá,
enquanto esse menino, de volta à barraca dos suspiros, observa o movimento. Logo,
ele receberá uma mensagem do correio elegante. E em algum lugar, outra garota
sentirá um sobressalto, um tênue tremor em seu coração.
para Anderson Dino
FERNÃO GOMES
sábado, 15 de setembro de 2012
O GUARDADOR DE ESTRELAS ou LIRISMO LATINO-AMERICANO
A luz do monitor imprime os números nos
olhos do astrônomo: ele observa as lentas variações da análise espectroscópica
do asteroide, em sua passagem pela Terra. Faz anotações sobre o comprimento das
ondas eletromagnéticas, bebe qualquer coisa fumegante por uma caneca de louça e
continua observando em silêncio, cingido pela solidão de Arecibo. A solidão é
um tremor pelo outro; é o que quero esquecer, mas não posso; é o que quero lembrar,
mas não tenho. Na mesma noite, na Avenida Paulista, o gaitista de terno branco
executa em pé o Superhomem do Gil,
fazendo fundo à tristeza de um travesti cujas lágrimas desfazem a maquiagem
espessa. Ele olha para o céu, em busca de um sinal, mas muito além de suas
retinas há apenas um asteroide que fende o espaço, indiferentemente, exibindo sua
porosidade sideral. A noite é fria. O vento, esse fantasma, percorre as
esquinas da Defensa, onde amanhã estaremos entre os argentinos, contemplando as
ruínas da era de ouro. Num súbito encanto, um taxista encontra o filho distante
no espelho retrovisor. O mesmo vento que imperdoavelmente nos enreda e a mesma
algidez que esconde nossa límpida ternura deslizam pelos terraços de Havana,
onde Manuel “Puntillita” Licea materializa-se, feito aparição. Encostado a um
vão de parede, ele acende o charuto, lança o fósforo na escuridão cubana, como um estranho asteroide em chamas. Sorri, com discreto
movimento dos lábios, enquanto, em meio às baforadas, ouve ao fundo o Chan Chan, do Buena Vista Social
Club.
para Daniel Simões
FERNÃO GOMES
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