terça-feira, 31 de janeiro de 2012

BELEZA E DOR



Tudo começa com um pequeno tremor no coração. Um tremor tão tênue que, nas primeiras vezes, não é possível perceber seu sombrio esplendor. Em seguida, acontecem os assaltos repentinos, lapsos inexplicáveis: num inesperado instante, todas as coisas subitamente passam a existir, sem que haja uma mínima anterioridade, sem que haja um passado que as justifique, que lhes dê um nexo para sua súbita e estranha manifestação. Mas eu sinto que, de algum modo, em alguma espécie de realidade, esse passado existiu, ainda que agora ele seja apenas entulho, escombros de narrativas, vazio glacial. Não consigo lembrar. Eu simplesmente não consigo lembrar, apesar do esforço que, às vezes, faço. Talvez seja por isso que minha vida é mais esquecimento que representação. Quando tento resgatar minha história pressuposta, deparo-me com grandes campos nebulosos e um vento frio cortando paisagens extensas. Resta-me o esplendor do presente e suas ilusões tangíveis, sonhos que posso sentir em minhas mãos, em meus lábios, em minha pele. Enquanto isso, os vazios do que fui me constrangem, turvam a limpidez de meu ser que se desfaz, assim como os glaciares se desfazem pelas bordas, porque se esquecem. Talvez eu não ame o bastante a mim mesmo. Por isso, invento coisas para fingir que existo. Entre o visível e o imponderável, lá está o esconderijo da dor e de sua assombrosa irmã.

FERNÃO GOMES

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

JANELAS



Não me esqueço; não pelo constrangimento de estar diante de meu próprio duplo, mas pelo pavor indescritível que senti ao entrever a tênue e perfeita camada de assombro que move todas as coisas. Ele estava em pé, do lado de fora do saguão, exposto ao vento frio e à chuva fina, olhando através da grande parede de vidro. Não parecia fixar-se em mim, embora eu pressentisse nele uma vaga consciência de minha presença evanescente. Seus olhos percorriam os espaços, observando o movimento dos vultos que por ali se deslocavam. Eu me sentia como se sangrasse por uma única ferida, a mesma por onde meu ser se consumia, obliterando-se no ritmo do fio de sangue que deslizava pelas curvas deste corpo emprestado, na mais perfeita quietude, na mais inevitável e límpida crueldade. Mas ele desapareceu, repentinamente, sem que eu pudesse ao menos antever seus movimentos e suas intenções. Depois daquela tarde, vi-o, certa noite, em minha cama, dormindo por mim, encolhido sob a coberta, como se tivesse frio. Desde então, sua presença tornou-se mais frequente, mas não menos ostensiva: às vezes, ele senta-se à mesa e almoça em meu lugar, faz musculação, dá voltas na pista do ginásio, toma café, envia emails. Nas redes sociais, não sei quem segue ou é seguido; e absolutamente desconheço a imagem com que me identifico, bem como o nome que sob ela se inscreve. Não sei o quanto de mim esse outro conhece. Talvez não seja apenas um, mas centenas como eu, centenas de egos que constituem a arquitetura de uma alma grupal. É bem possível que eu seja uma face espectral de um Eu-Superior, a concepção mal resolvida de um deus que ainda não decidiu que destino dar a esta construção em abismo. Pode ser que eu seja esse deus esquecido que só agora começa a lembrar-se de si.  

FERNÃO GOMES

sábado, 26 de novembro de 2011

ZONA FRONTEIRIÇA


Cerzido à parede, como se fora sua extensão, ele permaneceu imóvel, quieto, ouvindo apenas o incrível batimento cardíaco, enquanto pressentia vultos se aproximando perigosamente entre colunas, na perspectiva do grande pátio. “Sou o fantasma de um rei que sem cessar percorre as salas de um palácio abandonado.” No extenso palácio, ele desprendeu-se da parede, deixando nela uma delicada ondulação, um vestígio de sua tênue presença. Por entre as inumeráveis salas, transformou-se em outro nome. “Aprende, pois, tu, das cristãs angústias, ó traidor à multíplice presença dos deuses, a não teres véus nos olhos nem na alma.” Deslocou-se entre portas e ângulos. Em algum lugar, atento ao menor movimento, o comandante da operação advertiu, pelo rádio, os agentes: “Detectamos uma perturbação no tecido holográfico. A leitura no mapa de fios identifica uma presença próxima do grupamento, possivelmente na próxima sala ou onde quer que isso seja. Aproximem-se com cuidado. Ele é perigoso; ele é ilusão.” Atrás de uma porta, ele se transformou em outro nome e movimentou-se, vagarosamente, na penumbra. “Quem sabe se o supremo e ermo mistério do universo não é ele existir com inteireza tal em existir, que não tenha sentido nem razão nem mesmo uma existência, de tão única, concebível.” Súbito, sentiu um solavanco nas costas e, quando deu por si, estava no chão, imobilizado por um agente sentado sobre seu peito, comprimindo seu tórax com os joelhos: “Olá, Fingidor!” Sob a pressão do corpo do agente, ele se dissolveu na escuridão, feito evanescência. “E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso, sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir, sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito. E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.” 

FERNÃO GOMES

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

PALEOLÍTICO


Na penumbra, a luz vagamente azul do monitor revela as ondulações de seu rosto, oculto sob o capuz que foi meu um dia. Os olhos percorrem as redes sociais, os portais de notícias e os mapas da cidade, por onde ele se movimenta, incógnito. Logo, ele desliza na noite fria como um espectro, põe o estêncil no spot e preenche de tinta os espaços vazios. O discreto ruído da tinta que se esplende sobre a parede é o único sinal de vida nesse canto escuro do labirinto de Londres.  Em seguida, ele contorna as linhas de definição das imagens, e ao concluir a intervenção, ele próprio dissolve-se na escuridão como um sonho tênue. Ao amanhecer, os cidadãos de todo o mundo descobrem que os mísseis, os tanques e os ratos de todos os parlamentos  tinham desaparecido.

para Banksy

Fernão Gomes

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

PIXELS


“Você é Thom Yorke?” A cidade, submersa na tarde fria, parecia uma composição de pixels em escala de cinza. “Não sabe o que atravessei para chegar aqui”, disse a garota. “Tão perto, e tão distante.” Acabara de chover; um ar gelado percorria as ruas da cidade, transformadas em espelhos extensos em cuja superfície refletiam-se as variações metálicas do céu carbonizado. “Meu irmão está muito doente e solicita que você cante uma canção pra ele. Apenas uma canção. Você faria isso por nós?” Entreolharam-se e, sem sequer uma palavra, Thom Yorke deixou sobre o piano a canção inacabada, pegou o violão e desapareceu na tarde fria, atravessando as fronteiras que a garota atravessara para encontrá-lo. A casa estava vazia, envolvida por uma penumbra delicada e quase irreal, como um sonho que se turva ao menor movimento. Apenas um tênue rumor de vida vibrava pelos cômodos escuros. A garota girou a maçaneta e abriu vagarosamente a porta de um quarto. “Querido? Trouxe a pessoa que você pediu.” Quando Grete acendeu o abajur, Thom Yorke e Gregor Samsa ficaram frente a frente, pela primeira vez. Depois de um breve silêncio, o músico sorriu, com discreto movimento dos lábios, e sentou-se na cadeira que Grete oferecera. Gregor Samsa acomodou-se num canto do quarto e ali começou a morrer, enquanto ouvia Thom Yorke cantar a canção[1] que ele solicitara, naquela tarde fria de Praga.

FERNÃO GOMES


[1] (How to disappear completely  – Kid A, 2000).

sábado, 22 de outubro de 2011

KURTZ


Posso sentir sua presença movendo-se pelo éter, atravessando evanescências psíquicas, aproximando-se pelo ar, na escuridão da Terra. Tenho esperado por esse encontro, mas confesso que sinto um tremor em meu coração. O medo inspirou tudo o que construí; tudo o que queima profundamente dentro de mim. É deplorável senti-lo, eu sei, mas sua vibração em mim também pode ser um refinamento de sensibilidade, uma possibilidade para a depuração do ser, para uma futura expansão da consciência. Tenho esperado por esse encontro. Esses pensamentos não passam de conjecturas, de devaneios fragmentários de minha inquietude, porque falo através de uma das muitas faces do ser infinito que sou, mas minha consciência disso é meramente retórica, não se manifesta em seu esplendor fenomenológico. Sinto sua presença aproximando-se pelo ar, na noite fria. Se alguém contemplasse agora os meus olhos, sentiria como neles se expressa a calma de quem não deseja mais o festim das emoções, a serenidade de quem não busca mais as vozes alteradas das ilusões do mundo, o silêncio de quem está saciado do furor das paixões, mas também veria o brilho de quem pisou os lagares de sangue, de quem percorreu os caminhos inconfessáveis de todos os terrores, o furor diabólico de quem não consegue mais se saciar com as velhas medidas. Tenho febre, tenho fome e há muito tempo espero por esse encontro.

FERNÃO GOMES

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

POSSÍVEL SÍNTESE PARA UMA ONTOLOGIA BRASILEIRA, Nº 3





                             
                                  Obs.: Sob a perspectiva de uma imaginação teórica antropofágica.




                                 FERNÃO  GOMES