domingo, 29 de dezembro de 2013

O CHAMADO DA NOITE


Quisera pudesse despertar os tremores que sinto, quando, calado, contemplo a tela esférica de seus olhos. Mas, ao pensar nessa impossível tarefa, sepulto em mim a ilusão do que poderia ter sido e fico, uma vez mais, de mãos vazias. Se eu dissesse uma palavra, uma única e providencial palavra, talvez pudesse ver, em seu silêncio, como são produzidas as lágrimas, e, sem hesitar, num único instante, tomaria de assalto todas as tecnologias celestiais que inventaram o seu nome e a razão de ser daquilo que se move em seu corpo; se eu olhasse para trás, ou para o lado, talvez meus olhos encontrassem os seus, e, naquele instante, naquele absoluto e singular instante, todo o seu ser cibernético possivelmente se sensibilizasse com essa verdade que estremece o que em mim ainda está em construção. Mas não disse uma única palavra, talvez a única palavra, e não vi suas portas se abrirem, perdi o momento de me apoderar das tecnologias celestiais que inscreveram seu nome em tudo o que existe; também não olhei para trás ou para o lado, nossos olhares não se encontraram e só agora percebo quanto fiquei sozinho, esquecido em algum canto de minhas ruínas. O que não fiz é o que espero fazer numa outra espécie de realidade, talvez uma realidade sonhada, mas tão real quanto a palavra que não disse, tão verdadeira quanto o olhar para trás que não aconteceu. Nesse instante, sepulto o encanto que não partilharei e permaneço calado, ouvindo a tênue sonoridade do que poderia ter sido, uma ilusão que se afasta e se desfaz pelos espaços insondáveis dentro de mim, entre as estrelas.

FERNÃO GOMES